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Campanha da ONU visa acabar com o lixo plástico dos oceanos
18 dez, 2017. 0 Comments. Sem categoria. Posted By: TivIdeia

Uma grande baleia azul feita de restos de sandálias de dedo encontrados no mar está na entrada do escritório das Nações Unidas em Nairóbi, a capital do Quênia. A escultura na grama simula o animal saltando na água, os espirros são garrafas plásticas amarradas umas às outras. O texto abaixo diz que pelo menos oito milhões de toneladas de plástico vão para os oceanos todos os anos. “A continuar assim, em 2050 haverá mais plástico no mar do que peixes”, informa. A campanha #CleanSeas (#MaresLimpos) é a maior do gênero na história da ONU. A meta é fazer com que plásticos descartáveis sumam de circulação em cinco anos.
Um pouco adiante da baleia, uma prancha de surfe é parte de uma instalação feita de garrafas plásticas, simulando uma onda. Um grande polvo também azul está ao lado da cafeteria, igualmente feito com a borracha de sandálias encontradas no mar. No corredor do prédio da ONU Meio Ambiente em Nairóbi, um albatroz grandão foi esculpido do mesmo jeito.
É uma maneira simpática de alertar para o fluxo da poluição marinha que está transformando os mares em lixões. Praias, peixes, fundo de oceanos, estômago de pássaros estão lotados de pequenas partículas de plástico usadas em cosméticos, canudinhos, sacos plásticos, tampinhas, cotonetes, copos, recipientes de todos os tipos. O mundo produz hoje 20 vezes mais plásticos do que na década de 1960. A poluição não poupa lugar nenhum – tem lixo das ilhas do Pacífico ao Círculo Polar Ártico. O volume é assustador: por ano cerca de oito milhões de toneladas de plástico vão acabar no mar. Isso corresponde a despejar um caminhão de lixo no mar por minuto.
Lançada em fevereiro em Báli, a campanha da ONU pede que os governos criem políticas para redução do plástico e solicita às indústrias que diminuam a produção de embalagens. Convoca os consumidores a mudar seus hábitos de descarte. No lançamento, o norueguês Erik Solheim, diretor-executivo da ONU Meio Ambiente disse: “A poluição plástica está surfando em direção às praias indonésias, assentando no fundo do mar no Pólo Norte e subindo na cadeia alimentar até nossas mesas de jantar. Isso tem de acabar”.
Uma série impressionante de estatísticas sensibiliza para o problema. A cada minuto, um milhão de garrafas plásticas são compradas no mundo e só 9% são recicladas. Mais de 100 mil mortes anuais de mamíferos marinhos são provocadas pela poluição plástica. Pedações de plásticos causarão a morte de mais de um milhão de aves marinhas este ano. “O problema da poluição marinha é que não a vemos. Olhamos para o mar e achamos que está tudo bem, mas não está”, disse ao Valor Sam Barratt, um dos líderes da campanha na ONU Meio Ambiente. “A menos que mude a atitude dos cidadãos, não vamos conseguir eliminar a poluição no mar”, continua. “É preciso ter claro que o que jogamos na praia, na rua, nos rios irá chegar ao mar. Entender que o oceano é um só e o estamos tratando com um lixão”, continua.
Imagens feitas em agosto de 2016 na praia de Versova, em Mombai, na Índia, revelaram um cenário horrível: uma sujeira impressionante e nenhuma areia. Muito do lixo vinha do mar e outro tanto das favelas do entorno. A falta de turistas não incentivava o poder público a limpar a área. A transformação aconteceu pela iniciativa voluntária do jovem advogado e ambientalista Afroz Shah. Durante 21 meses, voluntários recolheram 5.300 toneladas de lixo em decomposição e plásticos em um trecho de 2,5 quilômetros de praia. A ONU se associou ao esforço para dar visibilidade à investida. A experiência ficou conhecida como “o maior projeto de limpeza de praia do mundo”. “Era tanto plástico que um homem podia submergir naquilo”, disse Shah à CNN.
Já são 39 os países que aderiram à campanha. Isso significa que um terço das zonas costeiras do mundo poderão estar limpas em 2030, se os compromissos forem efetivados. Chile, Omã, África do Sul e Sri Lanka se comprometeram durante a Unea, a Assembleia Ambiental das Nações Unidas, que aconteceu no início de dezembro. Sri Lanka, por exemplo, irá banir o uso de plásticos descartáveis a partir de 1° de janeiro. A Costa Rica está empenhada em uma estratégia de cinco anos para melhorar a gestão do lixo, o que inclui a redução do uso de plásticos. A Indonésia prometeu reduzir sua “pegada de plástico” em 70% até 2025. No Chile, a presidente Michelle Bachelet acaba de promulgar um projeto de lei que proíbe sacos plásticos em 102 cidades costeiras.
A iniciativa nem sempre dá resultados. “Temos um exército de pessoas coletando plásticos e reciclando”, disse ao Valor Edna Molewa, ministra de Assuntos Ambientais da África do Sul. Ela reconhece que a campanha de banir sacos plásticos não deu certo. ” No início as pessoas deixaram de usar, porque tinham que pagar pelas sacolas. Mas depois se acostumaram ao preço, e voltaram a consumir”, conta. Ela adianta que está reformulando a iniciativa.
O Brasil, por seu turno, se comprometeu em criar um Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar. O esforço foi iniciado com um seminário nacional para se mapear o problema, que aconteceu em novembro, promovido pelo Ministério do Meio Ambiente, a ONU Ambiente e o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
O Brasil, segundo estimativas de 2016, produziu 60 bilhões de sacolas plásticas. O país é o 16º no ranking dos geradores de plásticos no mar, lembra Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da USP e referência quando o assunto envolve oceanos. “99% das pessoas conhecem o lixo na praia, mas 99% das pessoas desconhecem o lixo que está no mar”, diz Turra. “Plástico bom é o plástico que utilizamos diversas vezes.”
“O plano é conhecermos o tamanho do problema e aí traçarmos as soluções”, diz Régis Lima, coordenador de gerenciamento costeiro do MMA.
A campanha global da ONU pela limpeza dos oceanos foi lançada em fevereiro com a intenção de engajar governos, público, ONGs e empresas para combater o lixo plástico marinho. “Regulações nacionais fazem diferença no combate ao problema e dão um sinal ao setor privado que não tem se mexido muito nos últimos 60 anos”, diz um pesquisador que prefere não se identificar.
Além dos plásticos, a poluição marinha tem outras fontes. Hoje, os oceanos possuem 500 “zonas mortas”, com concentração de oxigênio tão pequena que torna inviável a presença de vida marinha. O Brasil, segundo mapeamento de 2008, tinha sete zonas mortas em função de esgotos lançados no mar sem tratamento.
Em sua conta no Instagram, Erik Solheim, diretor executivo da ONU Meio Ambiente escreveu há alguns dias que algumas pesquisas indicam que protetores solares usados quando se nada ou mergulha podem estar matando a vida nos recifes de corais. A estimativa é que se lançam ao mar, anualmente, 14.000 toneladas de protetores solares nos oceanos. “A boa notícia? Empresas estão oferecendo produtos inofensivos para os corais”.

http://cleanseas.org/
Fonte: Jornal Valor Econômico

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